O Cristianismo Bíblico

A doutrina de Jesus Cristo contida na Bíblia

Afinal, quem observa toda a Lei?

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torahApesar de terem muito em comum, judeus e cristãos vivem em lados opostos de um abismo. Certamente o que mais os afasta é a crença (ou descrença) de que Yeshua (Jesus) de Nazaré é o Messias de Deus. Porém, no âmago desta disputa existe uma questão mais específica, que é a observância da Lei de Moisés, a Torá. Para o Judaísmo, a maior prova de que Jesus não é o Messias é sua (suposta) atitude contrária à Lei, muito embora ele nunca tenha falado contra ela ou desencorajado sua observância. A questão está tão enraizada na história do Cristianismo, que mesmo entre cristãos existe esta celeuma; alguns grupos acham que a Lei deve ser guardada, enquanto outros acham que não (e outros ficam no meio termo, considerando os 10 Mandamentos como a lei dos cristãos).

Para o questionamento cristão, bastaria, em minha opinião, recorrer aos ensinamentos apostólicos, encontrados no Novo Testamento, para dar uma resposta cabal a esta questão. Considero que as informações contidas em textos como Atos 15 ou nas cartas de Paulo aos Gálatas e Colossenses são contundentes o suficiente para demonstrar que a Lei de Moisés se tornou antiquada, uma vez que Jesus veio estabelecer uma nova aliança, mais perfeita e completa. Entendo, porém, que surjam questionamentos como: “Se a Lei de Moisés foi dada por Deus, como ela pode ser imperfeita ou nula?”; ou: “Então a Lei foi anulada? Podemos viver como quisermos?”. Sendo assim, vamos pensar de forma pragmática sobre a Torá, a Lei de Moisés.

Quem guarda a Lei de Moisés hoje em dia? E por “guardar a Lei” eu me refiro a TODA a Lei, uma vez que a própria Torá não deixa margem para que escolhamos o que guardar e o que não guardar. Certamente que, de todos os grupos religiosos que, de uma forma ou de outra, observam a Torá, os judeus a observam mais. O Judaísmo tem a Torá como a palavra de Deus, um presente dado por ele. Sem a Torá não há Judaísmo e eles a leem todos os sábados nas sinagogas e a estudam com afinco. Entretanto, os judeus guardam a Lei? Toda a Lei? A resposta curta é não!

Parece uma acusação, mas é simplesmente uma constatação. Vou citar apenas 3 dos 613 mandamentos encontrados na Torá. Antes, vamos estabelecer um parâmetro. Cada país tem suas próprias leis no que tange a crimes, indenizações e liberdades, sendo assim, é muito difícil, nos dias atuais, acomodar todas as exigências da Lei a cada país onde existam judeus. Por isso, vamos estreitar nossa análise apenas a Israel, uma vez que, sendo um Estado judaico, poder-se-ia estabelecer a Torá como a Lei nacional. Estou analisando do ponto de vista de uma nação pelo fato de a Torá conter, não apenas mandamentos para serem cumpridos pelos cidadãos, pela pessoa comum, mas também pelas autoridades, civis, militares e religiosas.

Então pergunto: quantos adúlteros, assassinos ou filhos rebeldes foram apedrejados pela congregação de Israel desde que o Estado israelita foi fundado? Resposta: nenhum! Desde 1948, a única pena de morte no país foi imposta a um criminoso de guerra nazista. Sendo assim, a nação israelita não cumpre este mandamento há muito tempo. Outra pergunta: quantos senhores de escravos libertaram seus servos nos anos últimos sabáticos? Nenhum, pois a escravidão, entre os judeus, já não existe há séculos. A última: quantos sacrifícios são feitos anualmente a Deus no Templo em Jerusalém? Essa é fácil, uma vez que não existe um templo desde o ano 70! Esta é a situação mais sui generis de todas, pois, sem nenhuma dúvida podemos afirmar que Deus tirou o Templo dos judeus há 1946 anos, o que os tem impedido de cumprir a Torá em toda a sua inteireza!

Com a destruição do Templo, o Judaísmo precisou se reinventar, e a solução dos rabinos foi substituir a função dos sacrifícios por boas obras. Em outras palavras, o Judaísmo moderno considera que fazer boas obras (em hebraico, praticar justiça) equivale a realizar os sacrifícios que tinham por objetivo remover os pecados! Será que existe muita diferença do pensamento cristão? Além disso, os rabinos do Talmude (que, na maioria, pertencem à geração que viu o Templo ser destruído ou que vieram depois disso) ensinam coisas como “se uma pessoa honesta desejar cumprir um mandamento, mas não puder fazê-lo, Deus conta como se ele tivesse cumprido”, ou “quando um judeu piedoso cumpre um mandamento, toda a nação de Israel compartilha disso”. Ensinos como estes representam uma “saída” para o problema real de não se poder cumprir todos os mandamentos da Torá que, em outras épocas, lugares e circunstâncias, seriam possíveis e exigidos.

Diante do exposto, volto ao questionamento sobre quem, nos últimos 2 mil anos, tem cumprido a Lei. Se os judeus não cumprem mais os rituais do Templo, e se não aplicam mais as penas impostas pela Torá, o que sobrou dela para ser observado? Poderíamos dizer, de modo resumido, que lhes restou cumprir os aspectos morais da Torá? Creio que sim. E isso nos trás de volta ao Cristianismo: não é mais ou menos esta a abordagem cristã sobre o que representa “fazer boas obras”? Entretanto, muitos cristãos hoje estão preocupados se devem, ou não, cumprir os mandamentos da Lei de Moisés. Então, proponho novas perguntas:

1. Os cristãos precisariam cumprir os preceitos rituais da Lei? Uma vez que cremos que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, então os cristãos desconsideram os mandamentos rituais, não os cumprindo. Assim como os judeus, só que por motivos adversos.

2. Os cristãos precisam se preocupar com os mandamentos relacionados à reparação de erros, à condenação de crimes ou, por exemplo, aqueles referentes aos escravos? Obviamente que não, pois, além de vivermos tempos diferentes (quem quer ter um escravo hoje, mesmo que ele seja loiro de olhos azuis?), como citado acima, vivemos em países, geralmente democráticos, que têm suas próprias leis. Portanto, o cumprimento estrito dos mandamentos da Torá sobre essas questões não se aplica aos cristãos; e nem aos judeus.

3. Os cristãos precisam cumprir os preceitos morais da Lei? Devem eles observar o cuidado com o pobre, ou o respeito à propriedade do próximo, ou não matar, não adulterar, não tratar a ninguém de forma parcial, etc? Sim, claro! Mas não simplesmente porque está na Lei de Moisés, mas principalmente porque Jesus e os apóstolos ensinaram essas coisas! Não existe qualquer mandamento moral da Torá que Jesus ou seus apóstolos não tenham repetido, reforçado e, em alguns casos, até expandido (vide o ensino de Jesus de que o simples desejo pelo adultério já se constitui em pecado equivalente). De forma semelhante, os judeus observam tais mandamentos, que no final das contas são aqueles que cada indivíduo tem condições de cumprir na prática.

No final das contas, se desconsiderarmos aspectos puramente “religiosos” (como uso de roupas especiais, liturgias, circuncisão, etc), judeus e cristãos (e me refiro aqui a judeus piedosos e cristãos realmente comprometidos com Jesus) observam a Torá de modo muito semelhante. Certamente os judeus são mais reverentes em relação a ela, estudando mais que a média dos cristãos e compreendendo seu significado em maior profundidade (inclusive por não terem a barreira da língua). Por outro lado, os cristãos acreditam que Jesus, cumprindo uma de suas funções como Messias, interpretou a Torá de forma perfeita, trazendo à luz aspectos dela que nenhum rabino antes dele conseguiu.

Em suma, quem cumpre a Lei de Moisés nos dias atuais? Estritamente como está na Torá, ninguém, nem mesmo os judeus, ou seus líderes ou o governo do Estado de Israel. Mas o que realmente interessa dela tem sido observada, tanto por judeus quanto por cristãos. Jesus resumiu a Lei em dois mandamentos principais: ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento, e ame o seu próximo como a você mesmo“, e ainda declarou que “toda a Torá e os Profetas dependem destes dois. Creio que, apesar de suas graves divergências, judeus e cristãos se dedicam a observar esses dois mandamentos, cumprindo assim, o objetivo da Lei divina.

Portanto, se você é judeu, talvez seja hora de olhar para o cristão de um modo diferente, como um irmão que crê no mesmo Deus, nas mesmas Escrituras e nas mesmas promessas futuras. Se você é cristão, ao invés de ficar preocupado se deve ou não guardar a Lei, ou os 10 Mandamentos (embora eles não existam de modo isolado de toda o resto da Lei), procure observar se você cumpre os mandamentos deixados por Jesus e seus apóstolos; se sim, você está cumprindo a Lei belamente.

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Uma resposta para “Afinal, quem observa toda a Lei?”

  1. Muitoooo Bomm o artigo, aprendi MUITO, e concerteza vou começar a seguir o site de vocês. Parabens !!!

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