O Cristianismo Bíblico

A doutrina de Jesus Cristo contida na Bíblia

Jesus e o Judaísmo

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Sabemos que Jesus era judeu, mas o que isso significa exatamente? Dizer que alguém é judeu pode significar mais de uma coisa: que ela pertence a um povo, ou que ela pertence a uma religião ou até mesmo que ela nasceu em um determinada região de Israel. O termo judeu, após o retorno do exílio, passou a designar o povo de Israel como um todo, embora ele fosse composto por pessoas muitas tribos diferentes como Judá, Levi, Manassés e Efraim.

Hebreu, israelita, judaíta, judeu

Do ponto de vista étnico, Jesus era, como disse Paulo de si mesmo: hebreu de hebreus, circuncidado ao oitavo dia, pertencente à tribo de Judá, descendente do rei Davi; portanto, judeu. Além disso, sabemos pelas Escrituras que ele nasceu em Belém, cidade de Davi, conforme as profecias messiânicas do Antigo Testamento. O fato de ter vivido toda a sua vida na Galileia e desempenhar a maior parte do seu ministério ali – o que lhe conferiu o título de Nazareno – não muda o fato de que ele não era galileu de nascimento, mas judaíta, morador da região de Judá.

Porém, em acréscimo a isso, a religião praticada pelo judeus retornados do exílio chamava-se Judaísmo, e aquele que a praticava também era chamado judeu. Sendo assim, precisamos analisar também o que significa dizer que Jesus era judeu neste sentido, e como isso se relaciona com a religião judaica como a conhecemos.

Os Judaísmos do primeiro século

Antes de mais nada temos que admitir que a religião judaica nos tempos de Jesus não era uma religião monolítica e coesa, mas, semelhante a outras religiões como o Cristianismo, o Islamismo, o Budismo ou Hinduísmo, existiam diferentes tradições, diferentes interpretações das Escrituras e diferentes práticas religiosas entre os judeus.

Tomemos como exemplo a religião cristã: ela tem como base algumas doutrinas básicas defendidos pela maioria de seus adeptos, como crer em um Deus pessoal, crer que Jesus é o filho de Deus, acreditar na Bíblia, etc, mas ainda assim existem diferentes linhas, com suas próprias tradições e interpretações, como os católicos, os ortodoxos e os protestantes. Assim também, a religião judaica dos tempos de Jesus tinha preceitos-chave que eram compartilhados por todos aqueles que se consideravam judeus.

Dentre esses preceitos podemos destacar a crença de que, o que chamamos hoje de Antigo Testamento, era inspirado por Deus, a crença de que o templo de Jerusalém era a habitação do Altíssimo, que os pecados deveriam ser expiados pelo sangue dos sacrifícios, e também alguns preceitos que estavam intimamente relacionados com a identidade dos judeus como povo de Deus, como a guarda do sábado, as festas santas e a circuncisão. Todos os que se consideravam judeus, independente de suas visões particulares, partilhavam destes mesmos preceitos, e Jesus não era excessão.

Entretanto, existiam diferentes grupos dentro do Judaísmo que defendiam opiniões divergentes a respeito de outros assuntos, como a interpretação dos textos sagrados, como pôr em prática os ensinamentos bíblicos e até mesmo como lidar com aqueles preceitos compartilhados. Um ótimo exemplo neste sentido diz respeito à chamada Lei Oral. Até o surgimento do farisaísmo, não se tinha notícia de que alguém defendesse a existência de uma tradição oral. A partir dos fariseus surgiu a ideia de que uma tradição oral foi passada de Moisés para os líderes de Israel e assim sucessivamente, até chegar em sua própria época. Particularmente não duvido que alguma tradição oral não escrita, dos tempos de Moisés, possa ter sobrevivido até aqueles dias.

Entretanto, embora os fariseus tivessem isso como fato e defendessem suas próprias tradições baseados nisso, outros grupos não compartilhavam dessa visão. O próprio Novo Testamento nos mostra que os saduceus não aceitavam as tradições defendidas pelos fariseus, e Josefo, historiador judeu do primeiro século, nos informa que eles só aceitavam a Torá de Moisés, mas não a Torá Oral. Outro grupo, de que Josefo nos fala, são os essênios. Eles também não aceitavam o conceito de lei oral e repudiavam algumas tradições dos fariseus.

Muito embora os fariseus tenham dominado a maior parte da vida religiosa judaica do primeiro século – isso quer dizer que muitos deles eram mestres da lei e líderes de sinagogas, o que acabava por torná-los referência para o povo – eles não representavam a única visão do Judaísmo. Até mesmo entre os próprios fariseus existiam discordâncias, como podemos perceber nas disputas entre as escolas de Hilel e Shamai, dois fariseus que tinham interpretações divergentes da Lei e que viveram pelos tempos de Jesus. Eles discordavam em muitos pontos, inclusive sobre como observar o sábado, como lidar com o divórcio e outras coisas relacionadas à prática religiosa – chamada halacá.

Sendo assim, quando dizemos que Jesus praticava o judaísmo temos que distinguir entre o que é prática religiosa dos princípios centrais da fé israelita e o que é tradição religiosa recebida e aceita; entre o que todos os judeus praticavam – e que indubitavelmente foi herdado das Escrituras Sagradas – e aquilo que cada partido, ou seita, defendia.

Judaísmo geral vs Judaísmo estrito

Do ponto de vista geral, Jesus era um judeu legítimo: ele era circuncidado, cultuava no templo, cria nas Escrituras e no Deus único de Israel, observava o sábado; em suma, participava da vida religiosa judaica. Do ponto de vista estrito, Jesus tinha suas próprias interpretações das Escrituras, não se enquadrando em nenhum dos partidos então existentes. Se deixarmos um pouco de lado a tradição cristã e a visão que temos sobre Jesus, poderíamos situa-lo como um rabino de opiniões muito próximas às dos fariseus. Alguns, inclusive, chegam a afirmar que Jesus foi um fariseu, embora não haja amparo histórico ou bíblico para essa afirmação. O que temos é uma demonstração clara de que, em muitos assuntos, Jesus concordava com a interpretação dos fariseus, e em outros ele discordava delas veementemente.

Por exemplo, entre Hilel e Shamai, Jesus se alinhava muito mais a Hilel, embora não concordasse com tudo o que ele defendia. Jesus tinha suas próprias posições. Alguns estudiosos como David Flusser e David Bivin afirmam, a meu ver de forma correta, que os maiores embates de Jesus com os fariseus ocorriam justamente porque as visões deles eram muito parecidas. Além disso, não havia outro grupo religioso que se envolvesse mais com o estudo e o ensino das Escrituras do que os fariseus. Talvez os essênios se dedicassem de igual modo, porém eles viviam isolados da sociedade, muitos em seus mosteiros, e não faziam parte do convívio religioso judaico. Então, uma vez que os fariseus eram o grupo que mais se dedicava a interpretar e ensinar as Escrituras, era natural que Jesus, que fazia o mesmo, tivesse alguns embates com eles.

Inclusive, vale destacar que, embora alguns judeus hoje rejeitem o modo como Jesus criticava duramente alguns fariseus por hipocrisia, de acordo com Josefo os essênios pensavam do mesmo modo, chamando os fariseus de aproveitadores e afirmando, de modo muito semelhante a Jesus, que os fariseus eram bajuladores agindo em beneficio próprio.

Conclusões

A que conclusão chegamos então? Do ponto de vista geral, Jesus praticava a fé de Israel, com tudo aquilo que era esperado de qualquer judeu e que era aceito por todos aqueles que criam na Lei e nos Profetas. Jesus vivia a Lei e os Profetas de forma intensa e genuína. Porém, do ponto de vista estrito das interpretações e das tradições, Jesus tinha sua própria linha (ou autoridade, poderíamos dizer). Isso leva, inclusive, alguns estudiosos como o Dr. Eli Lizorkin-Eyezenberg a afirmar que o assim chamado “movimento de Jesus” deveria ser considerado uma forma legítima de Judaísmo do primeiro século. De fato, os próprios judeus chamavam os primeiros cristãos judeus de “nazarenos”, como se fossem mais uma seita entre eles, tendo o mesmo direito de existência junto aos fariseus, saduceus e essênios.

Sendo assim, Jesus era judeu porque pertencia à nação de Israel. Era judeu porque era um hebreu da tribo de Judá. E era judeu porque, sob certo aspecto, vivenciava integralmente a religião dos hebreus, que em seu tempo era chamada de Judaísmo. Ao mesmo tempo, não pode ser enquadrado dentro do Judaísmo que conhecemos hoje. Se a história tivesse acontecido de uma forma diferente, provavelmente teríamos dois Judaísmos: o rabínico e o cristão.

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