O Cristianismo Bíblico

A doutrina de Jesus Cristo contida na Bíblia

A Lei de Cristo

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Os cristãos, em geral, têm um certo preconceito com a Lei de Moisés, a Torá. Protestantes, talvez mais do que católicos e outras vertentes, chegam ao ponto de trata-la como um mal, fazendo uso, equivocadamente, de algumas palavras de Paulo. Por conta disso, somente os aspectos negativos da Lei são destacados. Entretanto, o próprio Paulo afirma que a Lei é santa, justa e boa (Rm 7:12) e que pode ser usada de forma adequada (1Tm 1:8).

Além disso, existem muitos mal entendidos a respeito da função primordial da Lei e da forma como ela foi apresentada ao povo de Israel. Um exemplo disso é a ideia de que os 10 mandamentos são uma lei à parte da Lei mosaica, como se fossem mandamentos universais, enquanto o restante da Torá apenas servisse aos israelitas. Em lugar algum isso é declarado nas Escrituras; os 10 mandamentos são parte da Torá, servindo como um resumo inicial, uma espécie de introdução para o povo congregado ao redor do Sinai, ao restante dos mandamentos que viriam a seguir.

A verdade é que a Lei de Deus é bastante extensa, tanto pela quantidade de mandamentos, quanto pela sua abrangência. A melhor forma de entendermos o propósito primordial dela é comparando-a com a Constituição de um país. Pela Constituição – e as demais leis que decorrem dela – se rege todos os aspectos da vida dos cidadãos. Era exatamente isso que a Lei fazia. Ela regulava como os israelitas deveriam tratar uns ao outros, assim como estrangeiros e servos; tratava sobre a propriedade, as demarcações de terra, a economia, mas também a saúde, a identidade do povo hebreu e seus feriados nacionais. Por ser uma lei divina, tinha como diferencial a forma como Deus deveria ser cultuado e como os pecados podiam ser expiados.

Subdividindo a Torá

Por causa dessa abrangência, podemos dividir a Lei mosaica em 5 grupos e categorias: mandamentos, ordenanças ou estatutos, preceitos, juízos e memoriais ou testemunhos. Tais expressões aparecem algumas vezes na Torá:

“Esta é, pois, a lei que Moisés propôs aos filhos de Israel. Estes são os testemunhos, e os estatutos, e os juízos, que Moisés falou aos filhos de Israel, havendo saído do Egito;”

Deuteronômio 4:44,45

“Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, e todos os dias guardarás
os seus preceitos, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos.” 

Deuteronômio 11:1

E ainda:

“E guarda a ordenança do Senhor teu Deus, para andares nos seus caminhos, e para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés; para que prosperes em tudo quanto fizeres, e para onde quer que fores.”

1 Reis 2:3

As ordenanças (ou estatutos) eram tudo o que Deus exigia para a santidade (separação) do seu povo, o que lhes distinguia a identidade: circuncisão, como cortar os cabelos, não misturar tecidos, etc. Estes estatutos os distinguiam dos povos ao redor.

Os preceitos têm a ver com as funções sacerdotais, assim como as leis de pureza cerimonial: os sacrifícios, os tipos de ofertas, o tempo de purificação relativos à menstruação, etc. Observe que esse tipo de mandamento visava, especialmente, a relação do homem com Deus.

Os testemunhos (ou memoriais) diziam respeito às festas e dias santos: o sábado, as festas do outono e da primavera, assim como as luas novas. São chamados de testemunhos porque testemunham às gerações seguintes o que Deus fez no passado.

Os juízos são todas as condenações decorrentes da transgressão dos mandamentos. Sendo assim, o juízo para quem violasse o mandamento de não matar um inocente era a morte, por exemplo.

Por fim, mandamento é tudo que é ordenado fazer. De certo modo, cada item da Lei é um mandamento, mas no sentido estrito, é tudo o que não se enquadra nas categorias anteriores. Poderíamos dizer que, no geral, são o aspecto ético e moral da Lei: amar e respeitar o próximo e sua propriedade, não manter relações sexuais ilíticas e não atentar contra a vida do inocente, são alguns exemplos.

Essa divisão, ainda que não pormenorizada na Bíblia desta maneira, nos faz compreender melhor aqueles aspectos da Lei que, de fato, prescreveram e aqueles que não foram. Por exemplo, Paulo diz que a a lei trouxe condenação e morte, mas não apenas isso! Ela trazia vida, respeito ao próximo e ensinava como cultuar a Deus. Jesus diz que se alguém cumprisse a Lei, viveria (Lc 10:26-28). Entretanto, a Lei, da exata forma como foi apresentada no Sinai, não pode mais ser cumprida, já há cerca de dois milênios. Jeremias já havia predito isso e o escritor da epístola aos Hebreus o confirma (Hb 8:8-13). A Aliança do Sinai seria anulada e outra, muito melhor, a substituiria; e isso não foi dito por um cristão, mas por um profeta hebreu, 700 anos antes de Jesus!

A Lei depois do Messias

O que ocorre então quando o Messias vem? Segundo os sábios da Mishná, quando o Messias viesse, ele completaria a Torá. É exatamente a isso que Jesus se refere quando diz que não veio para abolir a Lei, mas cumpri-la. Os ensinamentos de Jesus aperfeiçoam a Lei, a tornam “completa”. No que tange à Sua morte, expiando definitivamente os pecados de Israel e da humanidade, torna os rituais do Templo obsoletos – e não é de se espantar que o próprio Deus tenha permitido a destruição do Templo e o fim do sistema sacrificial! A condenação que provinha da Lei também se encerra em Jesus, e é justamente a isto que Paulo se refere em Gl 3:13 – a ponto de que nem mesmo o moderno Estado de Israel aplica as penas impostas pela Lei de Moisés. A condenação era justa: cada um levava a culpa pelo seu erro. Mas, novamente, a expiação do Messias Jesus nos livrou dela, abrindo espaço para que a graça de Deus fosse manifesta a todo o mundo, tanto a judeus quanto a não-judeus (Jo 1:17).

E o que dizer dos memoriais de Jeová? As festas santas, os sábados e as luas novas que Deus ordenou que os Israelitas guardassem para sempre (Ex 31;16)? Ora, os judeus ainda seguem guardando estes mandamentos divinos, primeiro porque não há motivos para deixarem de cumpri-los. Segundo que isto faz parte de sua identidade como a única nação escolhida por Deus para trazer seus oráculos e o Messias ao mundo. Aliás, no mesmo momento em que Deus os ordenou guardarem o sábado para sempre, Ele também frisou que este seria um “sinal permanente entre mim e o povo de Israel” (Ex 31:17). Estas são obrigações que o povo de Israel tem para com seu Deus, o que não significa que os gentios também estejam obrigados a isso.

Novamente, alguns rabinos da Mishná entendiam que o próprio sábado não era uma obrigação das demais nações, apenas de Israel, assim como a guarda das festas e a circuncisão. É interessante notar que o Concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, ratificou esta posição, de que os não-judeus que cressem em Jesus não precisariam tornar-se judeus, ou seja, não precisariam circuncidar-se e, consequentemente, guardar todos os estatutos que um judeu estava obrigado a guardar. Também é interessante lembrar dois comentários de Paulo a este respeito: a) ele dizia que, qualquer gentio que se deixasse circuncidar, tornaria-se judeu e estaria obrigado a cumprir os preceitos estabelecidos pela Lei (Gl 5:3); b) ele defendia que o judeu que cresse em Jesus, não desfizesse sua judaicidade, mas que, por outro lado, o gentio que cresse em Jesus não se preocupasse em ter que tornar-se judeu (1Co 7:17-19).

Se as ordenanças e os testemunhos pertecem exclusivamente a Israel, e os preceitos e juízos foram abolidos pelo sacrifício do Cordeiro e pela destruição do Templo, nos resta, então, o que chamamos de “a parte ética e moral da Lei”. Embora o Judaísmo não se preocupe em fazer essa subdivisão dos mandamentos da Torá, ela é inegável. Na verdade, os próprios judeus gostam de enfatizar que nem todos os mandamentos existem para todos: alguns se aplicam apenas aos sacerdotes, outros apenas a homens, outros apenas a mulheres, etc. Mas existe um grupo de mandamentos que se aplicam a todos, em todas as esferas e a todas as classes de pessoas; é a isso o que chamamos de mandamentos éticos e morais. Mandamentos de não matar o inocente, não roubar e amar o próximo como a si mesmo não se restringem a nenhum grupo específico, nem de judeus, nem de gentios.

Uma nova Lei para uma Nova Aliança

A pergunta inevitável, então, é: “não assassinarás” ainda é válido? “Ama ao teu próximo como a ti mesmo”? Os 10 mandamentos, em geral, não continuam validos? Não apenas todo aspecto ético e moral da Lei ainda é válido, como são extensivamente ratificados por Jesus e pelos apóstolos. Cremos que Jesus veio “cumprir a Lei”, mas o que isso realmente significa? Que ele próprio a cumpriu por nós e agora estamos isentos de cumpri-la? Se o próprio Jesus disse que não veio para abolir a Lei, ele a teria abolido pra aqueles que crêem nele? Faz algum sentido pensar que não preciso mais me preocupar em ser santo como Deus é santo (Lv 20:7)? O próprio Jesus não ensinou isso (Mt 5:48)? Pedro não disse o mesmo literalmente (1Pe 1:15)? Percebemos então que a doutrina cristã bíblica não anula ou abandona a Lei, mas a reforça. É a isto que se refere o assim chamado Sermão do Monte: Jesus cita um mandamento ou tradição (ouviram o que foi dito?), e em seguida traz em profundidade o que o espírito da Lei nos insta a cumprir (eu, porém, lhes digo). Jesus não está anulando a Lei ou nos ensinando a ignorá-la, mas, ao contrário, está “reciclando” ela para um novo tempo, a era messiânica.

Finis Dake, em sua Bíblia de Estudo, lista 1050 mandamentos do NT! O Judaísmo afirma haver 613 mandamentos na Torá; no Novo Testamento existem mais de mil! Se tivermos em mente que mandamento é toda expressão que vem na forma de um imperativo, podemos percebê-los claramente espalhados de Mateus a Apocalipse. São esses todos os mandamentos que Jesus nos deixou e que devemos observar, e cada um deles ecoa um mandamento anteriormente comunicado na Torá, na Lei de Moisés. Alguns podem afirmar: “mas Jesus nos deixou apenas dois mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; isso nos basta!” Isto não deixa de ser uma verdade, e até certo ponto funciona, mas é preciso ser mais especifico a respeito de algumas coisas. Se isso não fosse verdade, não teríamos mais mil imperativos no NT. Paulo ensina até mesmo o que devemos pensar!

Concluímos então que, estando em Cristo, apesar de não estarmos mais debaixo (da tutela) da Lei, não estamos sem Lei (e isso se aplica especialmente aos gentios, que não tinham Lei). Paulo afirma isso de forma categórica em 1Co 9:21, que ele não vivia sem Lei, mas estava sob a Lei do Cristo. Inclusive, Paulo é responsável por quase a metade dos mandamentos apostólicos legados a nós no Novo Testamento. E não apenas mandamentos, mas também o que poderíamos chamar de ordenanças, mandamentos que tratam da nossa identidade como discípulos de Jesus. Além disso, Jesus deixa claro que deixou mandamentos a serem seguidos: “Aquele que tem os meus mandamentos, e os guarda, este é o que me ama” (Jo 14:21). Tudo isto é parte da Lei de Cristo. Os verdadeiros discípulos de Jesus não abandonaram simplesmente a Lei de Moisés, eles a mantêm viva obedecendo à Lei do Messias.

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