O Cristianismo Bíblico

A doutrina de Jesus Cristo contida na Bíblia

A Doutrina

Conforme já exposto aqui, não existe qualquer outra fonte confiável de onde se possa conhecer as doutrinas de Jesus Cristo além da Bíblia. O Senhor, através de seus Apóstolos, e por inspiração de seu Espírito, comunicou nos evangelhos, epístolas e cartas que compõem o Novo Testamento tudo o que um discípulo precisa saber a respeito da mensagem cristã e dos mandamentos de Jesus. Entretanto, há alguns aspectos das doutrinas cristãs que se precisa observar, para que possamos desenvolver uma fé sadia, racional e justa.

Os Dogmas Cristãos

O primeiro desses aspectos diz respeito ao que poderíamos chamar de dogmas cristãos. Um dogma é qualquer assunto fundamental de uma doutrina, que seja considerado indiscutivelmente correto. Em outras palavras, um dogma é um assunto doutrinário que deve ser aceito sem reservas. Dentro da fé cristã, certamente temos alguns dogmas. Alguns exemplos são:

  • Deus existe;
  • Deus é um;
  • Jesus Cristo é o Filho unigênito de Deus;
  • Jesus Cristo morreu pelos pecados da humanidade;
  • Jesus Cristo ressuscitou dos mortos ao terceiro dia;

Qualquer pessoa ou grupo que negar qualquer desses pontos fundamentais da doutrina cristã, não pode ser jamais considerado cristão de fato. São questões irremovíveis da fé. Possivelmente alguns dirão que qualquer doutrina é questionável e que não podemos impor dogmas a ninguém. Entretanto, creio que aqueles que assim pensam estão por demais influenciados pela idéia de que dogmas religiosos são perigosos e têm o poder de escravizar o homem. De fato, a religião tem sido usada para o mal há séculos, mas será somente ela? A própria ciência, via de regra a arquiinimiga da religião, pode ser deveras dogmática e perigosa. O perigo não está nas ferramentas, mas em quem as utiliza.

Fazendo uma análise racional desses fatos, concluímos que, em qualquer sistema doutrinário, seja ele religioso, filosófico, científico, político, existem aqueles pontos que são considerados fundamentais e que, por isso mesmo, se constituem a base daquele sistema. Ou então, pensemos o seguinte: como é possível que alguém se considere cristão e, ainda assim, não acredite que Cristo sequer existiu? Não há lógica nenhuma nisso! Consequentemente, crer em Cristo, para um cristão, é um dogma!

Mas, o que deve ou não ser considerado um dogma? Para nós, cristãos, conforme anteriormente declarado, a Bíblia é a fonte de toda a verdade. Assim sendo, tudo o que a Bíblia declara como verdade, é dogma da verdade. Trocando em miudos, o que a Bíblia expressamente declara sobre qualquer assunto deve ser acatado por nós, discípulos de Jesus, como um fato inegável e indiscutível. Porém, a Bíblia não é clara e enfática em tudo. Existem revelações que, por serem parciais, deixam margem para que cada um as entenda e intreprete à sua maneira.

As Revelações Parciais

Quando Paulo escreveu sua primeira carta aos coríntios, ele responde a alguns questionamentos quanto ao casamento. Em dado momento, ele diz: “Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer (…)” (1Co 7.25). Paulo era um apóstolo constituído por Cristo, e como tal era profeta, mestre e pastor. A doutrina que ele nos deixou veio, em verdade, do Espírito Santo, que o usou como canal. Entretanto, nem sempre ele tinha uma instrução divina para todos os assuntos; Deus não lhe dera nenhuma revelação àquele respeito. Assim, mais de uma vez, Paulo deixa claro que está dando sua opinião pessoal, não um mandamento de Deus.

De maneira semelhante a essa, temos alguns assuntos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos, que só nos foi dado uma parcela de seu conhecimento. O que sabemos, por exemplo, sobre a criação do mundo? Sabemos que tudo foi criado por Deus, por intermédio da sua Palavra, em sete dias, mas não sabemos detalhes dessa criação. Nem ao menos podemos ter certeza (embora alguns pensem o contrário) de que os sete dias tinham vinte e quatro horas cada. E há mais. Sabemos que haverá um arrebatamento, mas quando será exatamente? Os mortos em Cristo estão com ele no Paraíso (cf. Lc 23.43), mas em que estado de consciência?

Em resumo, há muitas questões bíblicas que não podem jamais ser consideradas como dogmas, pelo simples fato de não termos uma revelação completa e cabal sobre o assunto. Sendo assim, tais doutrinas devem pertencer à categoria daquelas passíveis de discussão e até mesmo discordância.

Os Costumes Culturais

Mas ainda há um terceiro grupo de doutrinas. Estas existem pelo fato de a fé cristã abarcar diferentes culturas em diferentes tempos. De fato, algumas características notáveis do cristianismo se destacam em relação a outros sistemas religiosos:

a) a fé cristã é universal, ou seja, não pertence a nenhuma cultura em particular;
b) a fé cristã é maleável no sentido de se adequar a diferentes culturas e épocas;
c) a fé cristã possui elementos de revolução social, sem fazer disso uma bandeira;

Sob uma perspectiva histórica, a expansão rápida e eficaz do cristianismo se deu em virtude dessas características, pois, (a) não sendo uma religião nacional, permitiu o ingresso de qualquer povo; (b) adaptando-se, não causou choques suficientemente violentos às culturas em que adentrava; (c) pregando conceitos como a caridade, a misericórdia e a igualidade, atraiu muitas pessoas descontentes com a cultura egoísta, violenta e desigual de suas épocas. Sem ser uma doutrina revolucionista, o cristianismo causou uma revolução silenciosa que, pouco ao pouco, acabou por moldar a sociedade ocidental como a conhecemos.

Este aspecto de “revolução sileciosa” é encontrado especialmente nos escitos de Paulo. Pelo fato de ser um apóstolo entre muitos povos espalhados pelo Império Romano, Paulo soube equilibrar a mensagem cristã para que ela não entrasse em choque com alguns dos costumes estabelecidos da sociedade de então. Não existe, por exemplo, uma tentativa de acabar com a escravidão ou de lutar pela igualdade da mulher na sociedade, embora no seio da igreja, escravos e livres, homens e mulheres, pobres e ricos eram irmãos, sem qualquer distinção (cf. Gl 3.28). A revolução se dava nos corações, e não nas praças públicas. A bandeira do Evangelho sempre foi Cristo; as demais mudanças aconteceriam como uma consequência da nova vida em Cristo.

Em vista disso, Paulo (mas não apenas ele) instruiu algumas igrejas a terem zelo pela cultura local, de modo que o comportamento dos crentes e as reuniões da igreja não causassem escândalos que viessem a atrapalhar a pregação do Evangelho. Por esse motivo os crentes de Antioquia não deveriam consumir carne com sangue (At 15.29); as mulheres casadas de Corinto deveriam usar um véu na cabeça (1Co 11.6) e não deveriam fazer perguntas em público (1Co 14.34,35), além de não poderem exercer qualquer cargo de liderança na igreja (1Tm 2.11,12). O Cristianismo nunca foi uma religião com uma agenda social e, por isso, jamais levantou bandeiras sociais. Ao contrário, ela é espiritual, e professa a fé de que o homem pode ser transformado em convertido em um ser à imagem de Cristo. As revoluções sociais se seguiriam normalmente, o que aconteceu. Se hoje nossa sociedade preza pelo amor ao próximo, o papel da mulher foi valorizado e a escravidão é combatida, certamente devemos agradecer aos conceitos cristãos que estão embrenhados nela.

Portanto, em vista do supra citado, de forma alguma podemos tomar as orientações apostólicas que tinham como foco a conservação das culturas locais, em sua época, como doutrinas estabelecidas, muito menos como dogmas da fé. Precisamos, sim, termos uma visão da doutrina bíblica como um todo, tendo o cuidado de aprender tudo o que a Escritura fala sobre determinado assunto. Procedendo assim, fica óbvia a conclusão de que, o que é doutrina cultural, não se sustenta como doutrina inquestionável. Como lição residual de tais doutrinas, que poderíamos chamar de “ultrapassadas”, devemos observar o que, em nossa própria época e cultura, pode estar trazendo escândalo ou desviando a atenção para o Evangelho de Cristo. Certamente precisamos hoje de nossas próprias doutrinas culturais, sob a inspiração do Espírito de Cristo.

Concluindo, ao analisarmos com cuidado todo o corpo das doutrinas bíblicas – em especial as do Novo Testamanto – observamos que existem os dogmas, que são as crenças fundamentais da fé cristã, as revelações parciais, que são aquelas doutrinas passíveis de interpretação, pelo fato de não termos toda a informação sobre o assunto, e as doutrinas culturais, que foram necessárias para a cultura da época, mas que não fazem mais sentido para nós hoje. A triste constatação desses fatos é que, as divergências existentes na igreja chamada Protestante, não residem em diferentes dogmas; todos cremos nos mesmo princípios. O que nos separa é justamente o que não constitui o âmago de nossa fé: doutrinas incompletas e instruções culturais transitórias.